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Projeto do Campus São Miguel Paulista é premiado por boas práticas no ensino de histórias, culturas e saberes indígenas

Produzido e apresentado por estudantes, o podcast “Outro Olhar” aborda o pensamento de lideranças como Davi Kopenawa e Ailton Krenak

  • Publicado: Quinta, 26 de Fevereiro de 2026, 16h37
  • Última atualização em Quinta, 26 de Fevereiro de 2026, 17h00
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Mostrando que a educação pode ser um espaço de resistência, inovação e diálogo intercultural na valorização das culturas indígenas e afro-brasileiras, o podcast “Outro Olhar”, desenvolvido por estudantes do Campus São Miguel Paulista do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), foi um dos onze projetos premiados pelo edital “Aldear a Educação Básica: Fortalecendo a Lei 11.645/08, por mais histórias, culturas e saberes indígenas nas salas de aula no Brasil”.

O edital é uma iniciativa promovida pelo Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI) e pelo Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com o Instituto Alana e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). Lançado em setembro de 2025, o prêmio busca valorizar experiências educativas que promovem a sociodiversidade e o antirracismo, além de evidenciar a relevância dos conhecimentos indígenas para o enfrentamento da crise climática e a preservação de suas histórias milenares.

Representando o IFSP, o podcast “Outro Olhar” foi desenvolvido por estudantes do curso técnico de Produção de Áudio e Vídeo integrado ao Ensino Médio do Campus São Miguel Paulista. Sob a orientação dos professores Leonardo Alves da Cunha Carvalho, da disciplina de Sociologia, e Enoque Marques Portes, de Filosofia, o projeto investigou o pensamento de duas importantes lideranças indígenas: Davi Kopenawa Yanomami e Ailton Krenak.

As estudantes Gabriela, ⁠Glenda, ⁠Thayane e ⁠SabrinaParticiparam da produção do podcast os estudantes Glenda Aparecida Araujo do Amaral, bolsista de pesquisa, e Sabrina Kelly da Silva Vicente, Gabriela Duarte Gomes, Thayane Menezes Souza, Micael Oliveira dos Santos e Victor Alexandre Camargo de Moraes, como voluntários. Entre os anos de 2021 e 2022, eles foram responsáveis pela elaboração de roteiros, gravação, edição e publicação.

Ao longo da pesquisa, o grupo estudou obras como “A Queda do Céu”, de Kopenawa em parceria com Bruce Albert, e livros de Krenak, entre eles “Ideias para adiar o fim do mundo”, “A vida não é útil” e “O amanhã não está à venda”. A partir dessas leituras, os estudantes elaboraram roteiros e produziram cerca de vinte episódios, aplicando os conhecimentos técnicos adquiridos no curso.

Um episódio bônus contou com a participação da antropóloga Hanna Limulja, pesquisadora dos Yanomami e professora da Universidade Federal de Roraima, que esteve no Campus São Miguel em 2022 para uma roda de conversa durante a semana da diversidade.

O trabalho contou com bolsa de iniciação científica em nível médio, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo orçamento do próprio campus.

Impacto na formação
A estudante Glenda do Amaral relata o quão enriquecedora foi sua experiência. “Antes do projeto, meu conhecimento sobre a cultura indígena era bastante limitado e, muitas vezes, baseado em estereótipos. Aprendi sobre a diversidade dos povos indígenas, suas línguas, formas de organização social, saberes tradicionais e a importância da oralidade como forma de preservação cultural. Também compreendi melhor os desafios contemporâneos enfrentados por essas comunidades”, afirmou.

É o que também conta a aluna Sabrina Vicente. “Antes de entrar no Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) em 2019, eu não conhecia praticamente nada sobre povos originários. O ‘Outro Olhar’ foi uma oportunidade de aprofundar os estudos em algumas obras de Ailton Krenak e Davi Kopenawa. Consegui entender algumas particularidades de cada povo, a dimensão do sonho dentro dessas cosmovisões e essa outra relação com a terra e com as pessoas”, aponta.

Educação antirracista na zona Leste de São Paulo
A iniciativa do podcast dialoga com o projeto “Pedagogia Antirracista no Chão da Escola”, em andamento desde 2019 no Campus São Miguel, que promove oficinas, exposições e ações de combate ao racismo em escolas públicas da Zona Leste paulistana. Em 2025, esse projeto completou sete anos de atuação contínua.

O projeto nasceu com o objetivo de aproximar reflexões indígenas do cotidiano escolar, em consonância com a Lei nº 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino das histórias e culturas indígenas e afro-brasileiras nas escolas brasileiras. Além disso, permitiu que os estudantes aplicassem seus conhecimentos técnicos em áudio e vídeo, fortalecendo a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, conta o professor Leonardo.

Resiliência e ampliação de horizontes
Mesmo durante o isolamento da pandemia de COVID-19, os estudantes conseguiram gravar e editar os conteúdos em casa, garantindo qualidade técnica ao material. Para Sabrina, a maior habilidade desenvolvida foi traduzir e resumir materiais complexos em linguagem acessível. “Gostava muito das gravações, pois foi no período da pandemia e era um momento em que socializava com minhas colegas de projeto, discutíamos se o roteiro estava adequado e fazíamos mudanças para melhorar a compreensão.”

Glenda destacou ainda o desenvolvimento da comunicação científica e das habilidades técnicas de produção digital. “Dois processos me marcaram bastante: a gravação e a edição. Na gravação, o grupo discutia e deixava o conhecimento mais didático, e a edição foi a cereja do bolo, naquele momento eu podia visualizar o trabalho final.”

Atualmente, Glenda cursa Ciências Sociais na USP e afirma que o projeto despertou seu interesse pela pesquisa e pela antropologia. Sabrina conclui atualmente a graduação em Geografia na Unifesp, motivada pela necessidade de docentes comprometidos com a Lei 11.645. “Acredito na importância de abordar as relações étnico-raciais de maneira simplificada, garantindo o protagonismo de estudantes que não se veem representados nos currículos tradicionais.”

Sobre o prêmio
Mais de duzentas propostas foram avaliadas por um comitê de dezesseis especialistas ligados à educação, movimentos sociais e universidades. Inicialmente, seriam premiados dez projetos, mas a qualidade dos materiais levou à escolha de onze iniciativas. Entre os trabalhos selecionados estão podcasts com intelectuais indígenas, jogos educativos protagonizados por mulheres lideranças, catálogos táteis de grafismo pataxó e projetos realizados em diferentes etapas da educação — da infantil ao ensino de jovens e adultos.

As práticas pedagógicas premiadas serão disponibilizadas gratuitamente no site Mirim.org, ampliando o acesso da comunidade às experiências reconhecidas. Os autores receberão um vale-presente de R$ 2.000, e a cerimônia oficial de premiação está prevista para o primeiro semestre de 2026.

Ouça o Podcast: Clique aqui para acessar o "Outro Olhar" no Spotify

 

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